Março 15 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dizia Filipe I “Nos meus reinos possuo o convento mais rico e o mais pobre da terra, o Escurial (Espanha) e os Capuchos”, mesmo há distância de cinco séculos julgo poder modestamente e na minha opinião, pôr em causa este pensamento do monarca. Os Capuchos são das maiores riquezas que alguém pode encontrar no mundo, pelo menos nos pensamentos através da interiorização de valores que nos causa.

Para tornar mais fácil entender ao que me refiro, ficam as próximas palavras, retiradas do primeiro guia de Portugal de 1924 (edições Gulbenkian).

 

Convento dos Capuchos, fundado em 1560 por D. Álvaro de Castro, por disposição testamentária de seu pai, o vice-rei D. João de Castro, que ambicionava, como lhe dizia numa carta o infante D. Luis, “encher estes picos da serra de Sintra de ermidas e de suas vitorias”., o convento dos Capuchos (também chamado de Santa Cruz ou da Cortiça) é uma coisa ao mesmo tempo cheia de humildade e de grandeza – desterro para poetas e construído por poetas. Fica ao cabo do mundo, suspenso entre a abobada do céu e a planície ilimitada. Descobre-se ali tudo quanto há de grande – o céu, a terra, o mar, sem deixar de ser recolhido e íntimo.

Duas grandes fragas encostadas uma à outra formam-lhe a entrada. Toca-se a sineta, abre-se a cancela rústica e dá-se de cara com a cruz. Alguns degraus de pedra e entra-se no terreiro encantado. À direita há um banco, à esquerda uma fonte que escorre sobre uma taça entre dois resguardos de pedra com restos de azulejos e dois bancos cobertos de musgo. Silêncio, arvores desgrenhadas, ao fundo um telheiro que é o adrozinho do convento. Isto a bem de dizer é muito pouco, mas não há dinheiro no mundo que seja capaz de nos dar esta solidão tão recolhida onde estremecem fios de sol, este fio de água que sai de um velho tronco duas vezes centenário, onde estão aninhados o nicho e a fonte. Lá para cima fica a ramaria, o monte, os grandes rochedos decorativos. Suba-se ao adro revestido de cortiça. Uma senhora dorme encantada entre conchas e azulejos que revestem ingenuamente a moldura de pedra e a pouco e pouco vão caindo. Duas portas laterais, uma para a capelinha do Senhor dos Passos e outra para a Igreja, forrada de azulejos e com um frontal de mosaico, e cuja abobada é um grande rochedo. Duas rochas formam arcos, aproveitaram-nas para ai abrir a sacristia. Todo o convento foi aberto no monte, casado com o monte e está unido ao monte. Os degraus são escavados na pedra, os tectos revestidos de cortiça.

Sobe-se no coração da rocha para o corredor onde estão as celas minúsculas como túmulos, as portas são buracos, por onde se entra de gatas. Lá dentro uma janelinha de palmo. Sufoca-se. Aqui está o refeitório, onde uma grande lasca de pedra rugosa serve de mesa, a cozinha o quarto do prior um pouco mais amplo. Outras escadinhas, e vai-se dar ao quarto dos doentes, à casa do capítulo com um banco de cortiça em roda, tudo tão frio, tão fora do mundo que habitamos que se sai com alegria para o segundo terreiro, onde os cedros, os sobreiros, os buxos enormes rodeiam outra taça de água.

 À esquerda grandes blocos de pedra sobem pelo monte acima, entre a vegetação rústica, à direita a nota utilitária duma pequena horta cultivada e o esplêndido panorama da planície e do mar. è de aqui que melhor se apanha o aglomerado de casinhas que formam o convento, tão bem fundido com as arvores e o monte que parecem naturalmente ter ali nascido e crescido, tudo coberto de velho musgo, tudo penetrado de silêncio, tudo num abandono um pouco triste, mas cheio de harmonia e de mistério.

Velhos castanheiros derrubados sobre o caminho teimam em viver, outros erguem a copa para o céu. A vereda serpenteia e lava-nos a buracos cheios de sombra, ou a pontos onde se descobre horizontes ilimitados. Uma escadaria cravada na rocha conduz-nos ao alto do monte, donde se avistam as lombadas da serra eriçada de rochedos, a várzea, a planície e o mar escumante. No cimo do mais alto rochedo, dominando, uma cruz solitária.

No primeiro guia de Portugal de 1924 - volume "Lisboa e arredores"

publicado por blackcrowes às 13:54
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Local místico, segundo a descrição.
Altar de culto a natureza.
Portugal no seu melhor.
São Liberato
Anónimo a 15 de Março de 2011 às 15:47

Ver este lugar maravilhoso após uma caminhada de 4km em plena manhã soalheira da Serra de Sintra é algo de que se pode dizer com orgulho. Portugal histórico...tão perto de nós!
Filipe a 16 de Março de 2011 às 09:08

"O fim de uma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite. É preciso recomeçar a viagem. Sempre." - Saramago
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